O futuro do mercado da cachaça

Alexandre Bertin - Foto Quintal da Cachaça Alexandre Bertin - Foto Quintal da Cachaça

Apesar de todas as dificuldades, estou contente. Não pelo crescimento do mercado, nem pelos tributos que pagamos, mas pelo leve amadurecimento que tenho observado nos agentes, pessoas que trabalham há anos pela cachaça, ou que estavam ainda aprendendo algo mais para ganhar segurança e se posicionar. Evoluímos muito, ainda longe do suficiente, mas já comemoro.

Desde que iniciei neste setor, muito já mudou. Lembro-me de visitar clientes “potenciais” e nem sequer ser recebido, apesar da Sapucaia ser uma marca respeitável pela tradição e qualidade. Ainda hoje isso ocorre, evidente, porque o país é grande e os compradores nem sempre estão com tempo. E bem sei que não é fácil para ninguém.

Mas o conhecimento, ainda que escasso, está sendo ampliado.

Antes, também, percebia conformismo com certas coisas que eram difundidas sobre a cachaça. Um exemplo clássico é o da caipirinha, que mesmo entre bartenders era aceito com total naturalidade a mudança da cachaça por outro destilado/fermentado qualquer, sem nenhum tipo de resistência. Evidente que não estou falando aqui de todos os bartenders e donos de bar, mas ainda hoje é um assunto polemico. Mas me parece que estamos aos poucos recuperando o valor com a cultura da cachaça, tão antiga e conhecida e direcionando para o caminho correto, valorizando mais nosso produto.

Felizmente agora já consigo encontrar aqui e ali, ações determinadas para essa valorização, como não preparar a caipirinha com outros destilados, como cartas com drinks autorais com cachaça se expandindo para locais mais diversificados, como hotéis e outros estabelecimentos.  Parece estranho, mas no Brasil, país da cachaça, nossas cartas (cardápios) nos bares e restaurantes têm maior diversidade de whiskys e de outros destilados do que do nosso destilado nacional, encontrado em abundância e,com certo cuidado, de muito melhor qualidade que os demais. Claro, existe toda uma historia que justifica isso, sim.

Sobre os produtores, temos algo também que deve ser dito, porque estes, em boa parte também mudaram. Ainda temos exemplos de produtores que não primam pela qualidade, mas uma nova safra vem se formando há alguns anos e a cada dia temos mais gente qualificada produzindo cachaças que confirmam essa evolução.  Nem vou entrar aqui no assunto dos produtores informais e de toda a cadeia que mantém essa atividade viva porque seria difícil tratar de tema tão complexo neste pequeno texto.

É justamente nesse quadro interessante que nossa responsabilidade aumenta. Existe muita gente boa trabalhando para difundir os conceitos , qualidades, vantagens da cachaça. A grande maioria fazendo um trabalho por amor e gosto pelo produto e pela cultura e alguns por perceberem um mercado futuro promissor nas áreas de consultoria, produção, venda, exportação, turismo, comunicação, etc, etc. Minha opinião é que podemos distribuir uma boa quantidade de novos empregos pelo brasil se (nós) tivermos calma e compreensão do governo nessa fase para nossa atividade.

Existem boas iniciativas no mercado. O Mapa da Cachaça é um pioneiro nesse trabalho e estão surgindo cada vez mais organizações propondo atividades interessantes para mantermos a evolução desse conhecimento sobre cachaça. A Confraria Paulista da Cachaça é outra que, por principio, não atua somente com reuniões fechadas, mas sim num modelo aberto para um novo publico conhecer a cachaça. Grandes grupos na internet se formam há muito tempo também, como o Apreciadores da Cachaça. Enfim, uma diversidade de canais e a cada dia novos surgindo.

Muitos percebem esse momento como uma oportunidade de novos negócios e ai que penso está algo para reflexão, para além das “oportunidades de negocio”. Temos que continuar trabalhando na disseminação dos conhecimentos e na formação de pessoas, profissionais e consumidores, de maneira determinada.

Quanto tempo leva para que um bartender entenda e adquira real experiência sobre cachaça? Quanto tempo leva para que um consumidor entenda e tenha segurança para mostrar aos amigos que gosta de cachaça e falar bem sobre o assunto? Pode ser que você, caro leitor, ache que estou exagerando, porque está aqui, comigo, lendo agora este artigo e já tem essa visão clara.  Mas pense comigo:  Quantas pessoas já tiveram acesso a este tipo de conteúdo no país? O Brasil é grande, e precisaremos de muitos multiplicadores de qualidade e de tempo para fazer esse conhecimento ser bem distribuído por todo o país. Muitos consumidores ainda estão somente se relacionando com marcas, mas não com o produto em si.

Nesse sentido, meu ponto de vista é que temos que continuar formando pessoas que, para além de divulgar seu negocio, sua marca, sua consultoria, etc, trabalhem em prol da difusão do conhecimento do mercado da cachaça como um todo, seguindo na formação de outras pessoas, mesmo que informalmente, para eliminar muitas dúvidas ainda existentes sobre nosso destilado por todo todo o país.

Pense nisso. Estamos somente começando.

Alexandre Bertin é proprietário da Cachaça Sapucaia Velha. Administrador, com especialização em marketing, presidente da confraria paulista da cachaça.

Publicado em 29/03/2016 em Mapa da Cachaça www.mapadacachaca.com.br